Essência

Noite fria e gélida, macabra, trazendo-me, querendo trazer-me memórias inexistentes de imagens tristes e enfadonhas.
Vou-me lembrar, vou tentar lembrar-me.
Ouço passos, uma porta a ranger, uma brisa não convidada perturba a chama da vela com que quis invadir este espaço. Eu sabia que eras tu, quase que apostaria o meu fígado a uma qualquer ave de rapina, e perante a ira dos Deuses, juraria a pés juntos que serias tu.
Peço-te que te sentes, por favor senta-te, há tanto para contar, há um role de pequenos retalhos de histórias (in)dependentes, aqui, cravados na garganta. Eu sei que não queres um curriculum vitae, queres, penso eu que queiras, somente ouvir-me.
Aqui vai, houve um dia, em que me chamei pelo nome que até então desconhecia.
Um dia em que nessa manhã, o meu corpo pedia banhos de água quente, pedia reconhecimentos próprios, descobertas já alcançadas, mas, o corpo pediu. O espaço estava frio, imagina esse frio… tão frio.
Parei aí, por segundos ou minutos, horas talvez, desconheço o significado de tempo agora. Revirei e folheei páginas já escritas, fotografias já tiradas, músicas já por mim ouvidas e tocadas, e percebi… O reconhecimento não era do próprio corpo pelo corpo ou pela agressividade sublime da água quente, pois esse, o meu corpo já eu conheço.
Era a essência, daquilo de que sou, daquilo que me transporta e comove. Estás a ouvir não estás? Se quiseres podes acender um cigarro, queres um dos meus? Só fumo Camel…
A minha essência… vou-te tentar contar, tentemos.
Em forma de prosa ou poema? Em forma de história ou relato? Diálogo ou monólogo?
Não sei… só sei que há tanto, tanto, mas tanto para descobrir aqui, e da minha essência só sei que sou sonhador, ambicioso, curioso, distraído, carinhoso, sensível, que estou em permanente mutação, metamorfose, porque algo não está presente. Gostaria de poder dizer que eras tu. Que eras, ou melhor és, o elo que falta. Mas sabes tão bem quanto eu que não. És só mais uma sombra presente nas células que me compõem e que agora se espelha perante mim. És só a essência de mim...